quarta-feira, 9 de abril de 2014

Manual para reconstruir a civilização

Muita gente acha (ou pensa que acha) que a civilização está à beira de um colapso. No mês passado mesmo o Mensageiro Sideral abordou um estudo que sugere a possibilidade de que estejamos numa rota de autodestruição. Parece-me, portanto, muito apropriada a iniciativa de uma fundação nos Estados Unidos: eles estão começando a montar um “Manual para a Civilização”.

O projeto foi oficialmente iniciado em fevereiro e tem por objetivo selecionar cerca de 3.000 livros, dentre todos já escritos ao longo da história humana, para preservação.

“Batizamos essa coleção de Manual para a Civilização, e ela incluirá os livros que você mais iria querer para reconstruir a civilização”, afirma Alexander Rose, diretor executivo da Long Now Foundation.
Concepção artística do repositório do Manual para a Civilização
Concepção artística do repositório do Manual para a Civilização

A coleção será acondicionada em uma instalação que a Long Now está construindo em San Francisco. Além de servir como sua sede, o local será ao mesmo tempo biblioteca, bar, museu e cafeteria, aberto ao público e destinado a receber pequenos eventos.

Adicionalmente, a fundação fez uma parceria com o Internet Archive, que guardará digitalmente os livros.

COMBINANDO CONTEÚDOS

“Que livros são esses? Para garantir que não vamos pegar só um punhado de livros sobre como fazer fogo, distribuímos a coleção em quatro categorias básicas para ajudar a guiar o processo de coleção”, diz Rose.

São elas: cânone cultural (grande literatura, livros historicamente importantes, reunindo gente como Shakespeare e Platão), mecânica da civilização (conhecimento técnico, como construir e compreender coisas), ficção científica rigorosa (que conta histórias úteis sobre futuros potenciais) e livros ligados a pensamento de longo prazo, futurismo e história (seguindo a linha de que conhecer o passado ajuda a refletir sobre o futuro).

Algumas figurinhas carimbadas da nossa civilização ajudarão a selecionar o títulos.

Dentre elas, figuram Kevin Kelly, um dos criadores da revista “Wired”, Neal Stephenson, o escritor de ficção científica, e a astrofísica Jill Tarter, campeã da pesquisa SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre).

Naturalmente, os associados da Long Now também podem sugerir títulos.

Até agora, os organizadores atingiram cerca de 1.400 indicações, e a ideia é chegar até 5.000, para então fazer uma seleção criteriosa e fechar com os 3.000 livros mais bacanas — processo que será realizado por meio de votação.

Um dos títulos da coleção, contudo, já está definido: é o Disco de Roseta, iniciativa da Long Now que precedeu o atual projeto e que fez um belo registro das variadas línguas humanas.

A famosa Pedra de Roseta, para quem não é muito chegado em história, foi uma tábua do século 2 a.C. que continha o mesmo texto escrito em demótico, grego e hieróglifos.

Foi o que permitiu que o arqueólogo Jean-François Champollion finalmente traduzisse a linguagem hieroglífica, em 1882.
Aí no meio tem milhares de páginas de texto, em mais de mil línguas diferentes
Aí no meio tem milhares de páginas de texto, em mais de mil línguas diferentes

O Disco de Roseta é uma versão moderna desse artefato histórico e foi feito para durar. Construído em níquel, ele contém 13 mil páginas de informação listadas em 1.500 línguas.

Mas não pense você que é um disco de dados, como os nossos CDs. O texto está grafado fisicamente na superfície do disco e pode ser lido com um microscópio capaz de propiciar aumento de 650 vezes.

Além de estar disponível na Terra, o disco foi embarcado na sonda europeia Rosetta, lançada em 2004 e destinada a encontrar o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko em meados deste ano.

Ela passará milhares de anos orbitando o Sol desimpedida, preservando a herança cultural das línguas humanas por um período indefinido de tempo.

Até pela presença do Disco de Roseta como livro número 1 do “Manual para a Civilização”, a Long Now não está se limitando a títulos em inglês para a coleção completa. Esperemos que algumas obras brasileiras cheguem a compor a seleção. Machado de Assis mereceria, penso eu.

Mesmo que nossa sociedade jamais sofra um colapso no futuro, o “Manual para a Civilização” soa como uma iniciativa muito boa.

Além de ser uma biblioteca que todo leitor interessado gostaria de ter, trata-se, por exemplo, de uma ótima mensagem para transmitirmos a civilizações alienígenas, caso consigamos estabelecer contato por rádio.

Algo como o verbete sobre nós na “Enciclopédia Galáctica” de Carl Sagan…

Mensageiro Sideral