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domingo, 21 de julho de 2013

Libra, por seu custo, só será viável para grandes empresas

De O Globo

Empresas tentam atrair Petrobras como parceira

RIO — Entre muitas incertezas, críticas e horas extras das equipes técnicas, um seleto grupo de petrolíferas peso-pesadas de diversas partes do mundo já se articula e avalia a atratividade de Libra, área que será oferecida no primeiro leilão do pré-sal no Brasil em outubro. Executivos e especialistas do setor destacam que só empresas de grande porte terão condições de participar do maior leilão já feito no mundo. Pelas estimativas, apenas cerca de 20 companhias, além da Petrobras, devem participar.

O número é inferior às mais de 30 empresas citadas pela diretora geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Magda Chambriard, que esteve recentemente num road show em Londres. O consultor de petróleo e gás Reynaldo Aloy explica que o número de participantes não será maior devido ao porte do projeto, que tem um bônus de assinatura de R$ 15 bilhões a ser pago, além de exigir altos investimentos:

— Os valores envolvidos são elevados, principalmente no desenvolvimento do campo, envolvendo tecnologias complexas para a exploração no pré-sal.

As grandes do setor, como Exxon, Shell, BP, Total, ConocoPhillips e Statoil vão concorrer. Na América Latina, poucas têm bala na agulha, mas a colombiana Ecopetrol deve participar. Empresas de Austrália, Malásia, Rússia, Japão, Índia e China também se farão presentes.

Quatro gigantes chinesas

Muitos executivos acreditam que as quatro grandes petrolíferas chinesas — Sinopec, Sinochem, CNPC e CNOOC — entrarão de modo agressivo. Algumas atuam no Brasil, como a Sinopec, que fez parceria com a espanhola Repsol; e a Sinochem tem 40% do campo de Peregrino, na Bacia de Campos.

O economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Aloísio Araujo, especialista em leilões, explica que diferentemente das petrolíferas ocidentais, que visam ao lucro nos negócios, as empresas asiáticas estão interessadas na garantia do acesso futuro à matéria-prima estratégica. E para elas, o regime de partilha adotado no Brasil é o ideal, porque o pagamento é feito em óleo.

— As asiáticas querem a garantia do acesso ao petróleo. Por isso, as chinesas não estão preocupadas com os riscos regulatórios, mas é uma preocupação que as outras empresas têm — ressalta Araujo.

O advogado Fernando Villela, do Siqueira Castro Advogados, afirma que, apesar da grande atratividade de Libra, há incertezas e indefinições que têm preocupado as empresas.

Uma das maiores é quanto à participação da Petróleo Pré-sal SA (PPSA), estatal que será criada para comandar a exploração e produção no regime de partilha. O problema, segundo Villela, é o fato de que a PPSA vai participar do consórcio, interferir em sua gestão, mas sem assumir riscos nem gastos:
— O contrato de partilha brasileiro é heterodoxo, não existe igual no mundo.

A PPSA, uma empresa pública que participará do consórcio, não assume riscos nem injeta capital, mas terá uma forte ingerência na sua gestão.

A participação da estatal, diz o advogado, está fazendo com que as empresas avaliem com cuidado a atratividade de Libra. Mas ele acredita que ainda assim muitas empresas participarão do leilão.

Apesar das incertezas, as petrolíferas já estão tentando entender as novas regras, fazendo cálculos e buscando parceiros.

Pelo regime de partilha, a Petrobras terá uma participação obrigatória mínima de 30% no consórcio vencedor. Mas poderá entrar em um consórcio no leilão, com uma participação maior. Segundo um executivo do setor, várias companhias já estão namorando a Petrobras.

Segundo fontes, a BP já estaria conversando com a estatal para a formação de uma possível parceria.

Petrobras procurada

Segundo esse executivo, que não quis se identificar, algumas empresas estariam se oferecendo até para financiar a Petrobras: o parceiro assumiria os custos com o bônus de assinatura de R$ 15 bilhões e com os investimentos e, mais adiante, a Petrobras pagaria com petróleo.

Esse tipo de proposta é tentadora para a Petrobras, que não precisaria usar recursos de seu caixa no momento.

No Brasil, segundo os especialistas, apenas a Queiroz Galvão e a Barra Energia teriam condições de brigar por Libra, ainda assim com baixa participação nos consórcios.

O pagamento do bônus não seria problema, mas sim os investimentos futuros de bilhões de dólares.