quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Crônica - O homem move montanhas


Participávamos de um encontro em Parauapebas e fomos convidados a conhecer as minas de ferro da Serra dos Carajás. 
 
Já vi muitas paisagens e fatos pelo mundo afora. A visão que tive porém das minas de Carajás foi algo singular. 
 
Em um primeiro ponto se tem o panorama da primeira das minas sendo explorada: são cerca de sessenta ao todo, o que totaliza uma quantidade estimada de 18 bilhões de toneladas de ferro. 
 
Esta grandeza me incomodou. Não consegui imaginá-la. 
 
Imagine um quilo de ferro: é fácil. Imagine uma tonelada e vá progressivamente aumentando e fechando seu raciocínio naquilo que imagina ser a quantidade teorizada. À medida que se aumenta a grandeza, diminui a clareza da dimensão da figura imaginada. 
 
Procurei não pensar mais naquilo e resolvi apreciar a beleza daquelas montanhas que se perdiam no horizonte, cortadas pelas nuvens brancas e preguiçosas que escorregavam pelas encostas. 
 
Montanhas majestosas e imponentes. A magnitude daquelas serras me fez pensar na eternidade, pois que elas, naquele instante para mim, se confundiam com o próprio universo. 
 
De repente uma ideia me fulminou a mente e o choque foi tão surpreendente quanto angustiante. Acabara de me ficar claro o tamanho exato de 18 bilhões de toneladas de ferro: tal grandeza eram as próprias montanhas diante dos meus olhos. 
 
Aquela bela imensidão verde que se perdia no horizonte, aquele magnífico espetáculo de beleza que me inspirou perenidade, era exatamente a magnitude que eu não conseguira imaginar! E aquilo tudo estava sendo removido pelo homem! 
 
As pernas me tremeram um pouco, senti um suor frio e aquele incômodo e doloroso nó na garganta. O choro entalado. 
 
Nada daquilo era eterno. Tudo desapareceria, removido pelas mãos do homem. 
 
Imensas máquinas feriam a serra e abocanhavam um punhado de ferro que colocavam em outras para o transporte. 
 
O frenesi dos motores para atender os comandos de seus condutores enchiam o ar de um ruído peculiar: um ronco valente e destemido, como a intimidar o desafeto a não reagir. 
 
A montanha inerte, deixando separar a cada ronco um pedaço de seu todo. Poucos anos de exploração já deixavam ver uma imensa ferida na primeira das minas. Uma montanha já se fora. A paisagem chora a sua falta. 
 
Se foi assim, assim será. Que se levem as montanhas. Que se morda a terra e dela se arranquem as entranhas. Afinal tem sido assim desde que o homem deixou a vida e começou a trilhar rumo à sobrevivência. 
 
A angústia é que na pressa perdemos os ritos. Fazemos tudo sem a mínima cerimônia. Não pedimos mais permissão para coisa alguma: pegamos e levamos. Achamos que o planeta nos pertence, esquecemos que nós é que pertencemos à Terra. 
 
Os Carajás daquela serra já não mais estão lá. A serra daqueles Carajás um dia também não mais existirá: terá sido removida para outras paragens; terá outra forma; estará espalhada pelo mundo afora; será grades de prisões, esqueleto de prédios, estruturas de pontes e outras invenções dos homens. 
 
Aqueles que a removem deveriam fazê-lo com respeito. Deveriam feri-la com carinho. 
 
Não devem ouvi-la, mas cada dente daquelas imensas máquinas a rasgar a carne daquelas montanhas tão lindas deve provocar uma dor e um gemido. Afagá-la vez em quando com um simples olhar de meditação e amor nada custa. 
 
Glória ao homem, truão do mundo! Quem és tu e onde vais garboso infante? 
 
És demasiadamente grande e poderoso que moves as montanhas do universo! 
 
És demasiadamente pequeno e mesquinho que sequer imaginas a magnitude da tua imensa insensatez!