segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Bom Senso FC - Jogadores lutam para melhorar o calendário do futebol brasileiro

A primeira reunião do Bom Senso FC
A primeira reunião do Bom Senso FC
Goleiro do São Paulo foi o porta-voz do Bom Senso FC após primeira reunião
Após o primeiro encontro oficial do Bom Senso FC, movimento de jogadores que lutam para melhorar o calendário do futebol brasileiro, já é possível detectar algumas tendências dessa mobilização. 

A primeira, previsível, é a adesão cada vez maior de outros atletas, com cerca de 300 participantes até o momento. E a segunda foi revelada pelo goleiro Rogério Ceni, um dos líderes do grupo, ao lado de Alex, do Coritiba, e Paulo André, do Corinthians.

"Não é briga, não é boicote, não é greve. É necessário que a gente converse com as pessoas que decidem o futebol do Brasil e que o atleta seja parte ouvida", comentou.

Desta forma, o movimento não vai buscar o confronto, mas sim o diálogo com a CBF e a TV Globo, que detém os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.

O Bom Senso FC surgiu após a divulgação do calendário 2014 pela Confederação Brasileira de Futebol, que obrigaria os principais clubes do país a ter uma pré-temporada de apenas alguns dias, por causa da realização da Copa do Mundo. Isso causou uma insatisfação muito grande dos atletas, que buscam mudar essa situação.

"Tentamos apresentar benefícios para a televisão, que é quem banca o futebol, e para as instituições. A gente não caminha no sentido contrário. Queremos expor ao máximo o futebol, mas valorizá-lo ainda mais. O diálogo é o melhor caminho", afirmou o capitão são-paulino.

No encontro desta segunda-feira, que reuniu 20 jogadores de vários clubes brasileiros, o objetivo foi definir as propostas centrais para questões que têm repercutido no futebol nacional, como calendário do futebol nacional, férias dos atletas, período adequado de pré-temporada, Fair Play financeiro, participação nos conselhos técnicos das entidades que regem o futebol.

Um documentado assinado por todos os jogadores presentes na reunião será enviado à CBF.

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Modelo obsoleto: calendário brasileiro é criticado até na Europa

Jogadores, jornalistas e dirigentes falam sobre possíveis mudanças no calendário



INTERNA Neymar - Brasil x Japão (Foto: Mowa Press)
A possibilidade de mudança do calendário brasileiro para adequação ao modelo europeu foi recentemente rechaçada pelo presidente da CBF, José Maria Marin. 

No entanto, jogadores com experiência no Brasil e que jogam na Europa, além de jornalistas europeus, atestam que o abismo entre os dois calendário é maior que o mandatário imagina.

O zagueiro Felipe Santana, do Borussia Dortmund e com boa passagem pelo Figueirense fala da importância de uma pré-temporada adequada – algo impossível com o atual formato dos Estaduais:

- Antes do início, treinamos aqui um mês e meio. No Brasil, temos o que eu chamo de pré-temporada ativa, com jogadores adquirindo forma física jogando os Estaduais. Isso acaba em sobrecarga e as lesões são inevitáveis.

Nesse ano, o Santos tem sido um dos maiores prejudicados com o calendário, perdendo o craque Neymar em vários jogos do Brasileirão por conta de convocações para a Seleção. Já em 2009, clubes como Coritiba e Flamengo já se colocavam a favor da mudança no calendário.

O presidente do Peixe Luis Alvaro Ribeiro admitiu que tem conversado com dirigentes da CBF para que haja um bom senso:

– Tenho conversado bastante com o Marin e com o Marco Polo. Os clubes são os grandes prejudicados dessa anomalia, em que marcam jogos da Seleção em datas do Brasileiro, ao contrário da Europa.

Além de prejudicar fisicamente os jogadores, obrigados a participar de um Estadual sem condições físicas ideais, e os clubes, que são obrigados a jogar desfalcados por falta de pausa para jogos de seleções, outra consequência da inadequação do calendário brasileiro ao europeu é a falta de sincronização, com janelas de transferências em datas distintas.

O diretor do Vasco, Daniel Freitas, admitiu que a adequação facilitaria até negócios:

– Facilitaria na questão do mercado. Mas acho difícil que ocorra.

COM A PALAVRA

Mikel Recalde, repórter do jornal "As" (ESP)

O fortalecimento econômico do Brasil manteve jogadores como Neymar fora da Europa e fez com que os grandes clubes locais mantivessem seus principais atletas. 

Isso significou também que a Seleção Brasileira voltou a convocar jogadores que atuam no país e o calendário passou a incomodar.

O calendário europeu não é perfeito, pois há jogos de clubes logo depois de partidas pelas seleções. E se Messi ou Falcao se machucam por suas seleções? 

Quem paga o pato são seus times. No entanto, creio que é o modo mais efetivo de operar. 

Parar o campeonato durante jogos de seleções é o mínimo que se deve fazer. Se não é o caso, as equipes com os melhores jogadores, com mais “internacionais” são as que mais sofrem.

O calendário europeu é definido e organizado, apesar de não ser perfeito. Não é possível que esses clubes mais prejudicados não pressionem as federações, eles perdem muito assim.

Gonçalo Lopes, repórter do jornal "Diário de Notícias" (POR)

É incompreensível como as autoridades do futebol brasileiro ainda não adequaram o calendário ao dos principais campeonatos da Europa. 

Quem perde muito com isto são os clubes brasileiros, que ficam delapidados dos principais jogadores em alturas cruciais da temporada.

Face ao maior poderio econômico da Europa, os clubes brasileiros arriscam sempre perder os melhores jogadores no meio do ano, uma alteração para o calendário europeu evitaria esse cenário e proporcionaria aos clubes uma melhor preparação da temporada e ainda com os cofres cheios de euros. 

Outra coisa que não se entende é o fato de, por vezes, os clubes nem pararem nas datas Fifa. Em toda a Europa os clubes param quando as seleções jogam, não são prejudicados. 

O exagero no número de jogos também é digno de nota: 70 ou 80 jogos não existem. 

Na Europa, o máximo de partidas é 60 por temporada.

Jonas (à direita) fala sobre as diferenças entre os calendários na Europa e no Brasil (Foto: Jose Jordan/AFP)

BATE-BOLA

Jonas, atacante do Valencia e da Seleção Brasileira

LNET!: Qual é a importância dos amistosos da pré-temporada?

JONAS: São jogos de nível que fazemos, mesmo distante da forma ideal. 

Nós tivemos jogos contra Tottenham e Porto, que são times de ponta, e já somos testados depois de três, quatro semanas de treinamentos muitos fortes. Então pegamos times de outros países, é muito bom para condicionar.

LNET!: O respeito com a data Fifa é essencial para o jogador?

JONAS:
 É fundamental para todos: clube, jogador e seleção. Defender a seleção, seja qual for, valoriza o jogador, e todos nós temos o sonho, e o clube quer que seu atleta esteja lá. Mas não pode ficar sem ele em suas partidas decisivas.

LNET!: O assunto da diferença do calendário brasileiro é comentado na Europa?

JONAS:
 Fala-se bem pouco aqui, eles nem se interessam, na verdade. Só mesmo em procurar jogador novo, às vezes acompanhar alguns jogos, mas não há muita noção de temporada. Mas quando conversamos sobre isso, na verdade não é muito legal, eles até riem da nossa cara quando nós fala da situação.

LNET!: E a questão de adiamentos de alguns jogos?

JONAS:
 É errado ter que fazer isso, algum time fica com um, dois jogos a menos, prejudica o Campeonato Brasileiro.

LAOR, presidente do Santos (à esquerda), está tentando convencer Marin a mudar o calendário
(Foto: Ivan Storti)
DIRIGENTES FALAM

Você é a favor da adequação ao calendário europeu, com espaço para excursionar e valorizar a marca do seu clube?

Eduardo Maluf, diretor de futebol do Atlético-MG:

"Eu sou a favor dessa adequação do calendário porque assim o Atlético teria a chance de ter 30 dias de pré-temporada no Brasil e mais um tempo para essas excursões para a Europa ou outros continentes, já que é uma ótma oportunidade de gerar receita. 

Hoje em dia nenhum clube nacional disputa amistosos internacionais de grande porte. Acho que faz falta. Você leva o nome do clube para o exterior, valoriza sua marca e tem a oportunidade de gerar receita.

Paulo Angioni, gerente de futebol do Bahia:

"Acho que isso é uma discussão muito longa. Nao é uma situação fácil de adequação. 

Não tenho dúvida que com o nosso calendário, o intercâmbio ficou prejudicado. Eventualmente os europeus também vêm pouco ao Brasil, porque não há data para que eles participem de algum torneio. Eu vejo como uma adequação muito difícil. 

Não é uma coisa muito tranquila você trazer o modelo do calendário europeu para o brasileiro. Tem muitos complicadores, não é fácil de ser resolvido.

O ideal seria que você pudesse equacionar o propósito do calendário deles, até por causa das janelas, mas eu entendo muito bem as dificuldades de equacionar isso. 

Em virtude de entender como muito difícil essa adequação, eu prefiro não dar uma opinião. Pode ser muito vantajoso, mas traria muitos complicadores."

Felipe Ximenes, superintendente de futebol do Coritiba:

"Eu penso que é uma questão mais complexa do que pura e simplesmente adequar o calendário. Não é uma simples mudança porque o Brasil tem um tamanho continental, então a adequação é quase que uma adaptação de um continente a outro. 

Tem que levar em conta os países na Europa. As dimensões dele são bem menores que o Brasil. Transcende o fato de pura e simplesmente mudar. 

 gente tem o mercado do Oriente Médio, do Japão e outros mercados que estão aparecendo e são importantes para o futebol brasileiro e não necessariamente têm as mesmas datas da Europa.

Então é um estudo mais aprofundado, não tão simples. Você imagina: a gente pensa muito no Brasil, a gente fala de Série A e B, mas temos um esporte de mais de 50 mil profissionais e a mudança para o calendário europeu pode impactar nos campeonatos estaduais, o que pode gerar um desemprego altíssimo aos profissionais de futebol. 

Com a adequação, como ficariam os estaduais? Seria um efeito cascata nos outros campeonatos.
Eles (campeonatos europeus) têm essas divisões em baixo, mas essas divisões conseguem disputar porque os times da série principal jogam bem menos que a gente, aí fica mais fácil de adequar em baixo. 

Você imagina o Coritiba este ano: jogamos quase 80 partidas. Do que adianta adequar o calendário brasileiro aos europeu, se depois nos estaduais você não consegue descansar os 45 dias que os europeus descansam?"

Daniel Freitas, diretor de futebol do Vasco:

"Facilitaria na questão do mercado, principalmente o mercado europeu, que é o grande consumidor. Porém, pela questão cultural do futebol brasileiro, acredito que seria difícil essa adequação. 

Para que isso (excursões) acontecesse, seria necessário ter um período de pré-temporada maior e, com isso, ter a data dos Estaduais agendada para mais tarde, mas não necessariamente seria preciso adequar o calendário brasileiro ao calendário europeu."

Rodrigo Caetano, diretor-executivo do Fluminense:

"Os pontos positivos são maiores do que a possibilidade de excursionar. a gente coloca questão de transferência, de montagem de elenco, que na verdade seria melhor, ficaria claro que é melhor se a janela fosse adequada, mas envolve questão de patrocínio e até a cultura, então não tem como falar."

Luis Alvaro Ribeiro, presidente do Santos:

"Nós pedimos uma maior racionalidade no calendário, para que os clubes não sejam tão prejudicados. Me preocupo muito com este assunto e tenho conversado bastante com o Marin e com o Marco Polo. 

Os clubes são os grandes prejudicados dessa anomalia, em que marcam jogos da Seleção em datas do Brasileiro, ao contrário do que acontece em toda a Europa.

Contratamos os estudos do Amir Somoggi (consultor de marketing esportivo), para mostrar o quão prejudicial está sendo. Impede a aproximação com os europeus também. 

Depois que o estudo estiver pronto, vou convidar outros clubes para discutirmos sobre o assunto."

Patrícia Amorim, presidente do Flamengo:

"Desde que haja um acordo com a CBF e os clubes, a adequação é válida. Desta maneira os clubes podem ter a opção de excursionar com suas equipes no meio do ano, por um período de cerca de 30 dias, por exemplo. 

Justamente quando as equipes europeias estão iniciando suas pré-temporadas, gerando uma exposição da marca institucional, dos produtos licenciados e também gerando receitas, possibilitando, desta maneira, a internacionalização da marca Flamengo."

Duílio M. Alves, diretor adjunto do Corinthians:

"Existem várias sugestões e formas de pensar. Acho que o calendário precisa, sim, em um futuro próximo, ser refeito. 

Acho que é uma coisa que o Brasil, a própria CBF e as federações deviam aproveitar e fazer como foi feito na Copa do Brasil do ano que vem, com a participação de clubes que estão na Libertadores. 

Acho que, com o tempo, com bastante conversa e estudo, é uma coisa para se planejar pra 2014 ou 2015, é uma coisa pra ser feita com calma e repensar tudo isso"

Julio Casares, vice de Comunicações e Marketing do São Paulo:

"Eu acredito que seria bom, poderíamos excursionar, levar o time para fora do país, divulgar a marca. 

A nível de mercado seria bom. Mas acho que temos que respeitar os direitos de televisão também, que injetam um dinheiro significativo nos clubes."

Arnaldo Tirone, presidente do Palmeiras:

"O problema é o calendário. Estamos focados no Campeonato Brasileiro, não queremos falar de outra coisa. 

(Em relação ao Campeonato Paulista) Não faremos reclamação, porque esse formato já vem sendo usado faz tempo. Na verdade, isso é um fato irrelevante, porque já está decidido. 

Não adianta a gente falar nada."